Hotelaria de luxo vive expansão e turismo de alto padrão deve movimentar R$ 65 bilhões até 2030, diz CEO da BLTA

Em entrevista à Equipotel, especialista destacou o atual cenário do segmento no país e as oportunidades de mercado

Além da exclusividade e personalização, diversos são os fatores que têm impulsionado o movimento de hotelaria de luxo no Brasil, entre eles, gastronomia saudável, experiências privativas memoráveis e de bem-estar.

Segundo Camilla Barretto, CEO da Brazilian Luxury Travel Association (BLTA), instituição que há duas décadas, aproximadamente, vem atuando no fortalecimento da área, o mercado de luxo tem apresentado crescimento entre 12% e 15% ao ano no país. A estimativa é de que atinja a movimentação de R$ 150 bilhões até 2030, sendo R$ 65 bilhões na área de turismo.

O tema ganhou destaque recentemente, em matéria da CNN Brasil, publicada em 6 de julho. Intitulada “Brasil tem 8 hotéis entre os mil melhores do mundo; veja quais são” lista os estabelecimentos reconhecidos pelo La Liste Hotels 2026.

De acordo com a notícia, os meios de hospedagem nacionais que integram o ranking são:  Hotel das Cataratas (A Belmont Hotel), Fasano Boa Vista, Copacabana Palace (A Belmont Hotel), Fasano Hotel São Paulo, Palácio Tangará (São Paulo), UXUA Casa Hotel & Spa (Trancoso, Bahia), Emiliano São Paulo e Fasano Rio de Janeiro.

 Para entender mais sobre hotelaria de luxo, as oportunidades e o atual cenário no Brasil, a Equipotel entrevistou a CEO da BLTA. Confira:

1.⁠ ⁠Quais fatores têm impulsionado a hotelaria de luxo no Brasil?

Camilla Barretto - Existe uma combinação de diversos fatores. Mudança no perfil do consumidor de luxo, crescimento do interesse pelo turismo de experiência e natureza, valorização de atributos como autenticidade e brasilidade e por fim o luxo responsável como diferencial competitivo. O Brasil possui um ativo intangível que é extremamente valioso: a hospitalidade calorosa e verdadeira do nosso povo. Temos uma “vibe” (astral) não replicável e o turista que tem acesso a isso se encanta e promove naturalmente.

2.⁠ ⁠Atualmente, quais características são fundamentais para que um meio de hospedagem seja considerado de luxo?

Camilla Barretto - Hoje, ser considerado um hotel de luxo vai muito além de ostentar instalações sofisticadas ou alta tarifa. Na hotelaria contemporânea, o luxo é definido cada vez mais pela qualidade da experiência, pela personalização e pela capacidade de gerar conexão emocional com o hóspede. Luxo, atualmente, não é definido apenas pelo que é oferecido materialmente, mas pela maneira como faz o hóspede se sentir. Autenticidade, exclusividade, privacidade e coerência entre o que se promete e se entrega, do começo ao fim.

3. ⁠Segundo publicações jornalísticas, a hotelaria de luxo apresentou crescimento na retomada do setor hoteleiro pós-pandemia. Quais foram os principais motivos e o movimento registrado nos últimos anos no país?

Camilla Barretto - No mundo houve um movimento para recuperar o tempo perdido, chamado “revenge travel”, que trouxe viagens mais longas e maiores gastos por viagem. Aliado a isso, uma busca maior por privacidade, exclusividade, bem-estar, natureza, autenticidade, atributos que o Brasil oferece com qualidade. Poucos países no mundo conseguem promover uma combinação tão perfeita de biodiversidade, hospitalidade genuína e experiências de bem-estar profundamente conectadas ao território. Temos um país muito diverso que atende a todos os tipos de viajantes.

Dados da Embratur mostram que o Brasil vem batendo recordes de maneira consistente e, em 2025, atingiu 9,3 milhões de turistas internacionais, mais de 37% em relação a 2024, que deixaram no país US$ 7,86 bilhões — 7,1% a mais que o ano anterior. Este número segue crescendo e esperamos em 2026 cruzar a barreira dos 10 milhões de turistas.

Apenas os associados da BLTA, em 2025, injetaram R$ 3,7 bilhões na economia brasileira (dados preliminares do anuário BLTA & Senac 2025/26).

Já de acordo com o relatório de 2025 da consultoria Bain & Company, o setor de luxo no mundo deve crescer entre 2,5 e 5% em 2026.                                               

No Brasil, o mercado de luxo cresce de 12 a 15% ao ano. Em 2025, movimentou cerca de R$ 98 bilhões no Brasil e a expectativa é que atinja, até 2030, a marca de R$ 150 bilhões, sendo R$ 65 bilhões no turismo, representado por cerca de 1,5 milhão de pessoas.

4.⁠ ⁠Dados do Global Wellness Institute mostram que os segmentos de wellness tourism, spas e águas termais cresceram, recentemente, 30% e devem movimentar US$ 1,35 trilhão até 2028, em âmbito global. Que análise é possível fazer desse movimento e como ele se reflete no Brasil?

Camilla Barretto - Wellness deixou de ser um nicho complementar e passou a ocupar um papel central nas decisões de viagem. Não basta oferecer um spa com massagens, hoje o consumidor busca rituais, programas de imersão completos, que aliam gastronomia, estrutura física, saúde e bem-estar. No Brasil, essa tendência encontra terreno especialmente fértil, porque o país reúne atributos naturais e culturais capazes de transformar wellness em um dos pilares mais promissores da hospitalidade de luxo nos próximos anos.

Hoje, diversos empreendimentos já oferecem programas completos de detox digital, terapias do sono, medicina preventiva, yoga e mindfullness aliados à gastronomia saudável

5.⁠ ⁠De que forma os conceitos de hiperpersonalização, longevidade e bem-estar estão relacionados à hospitalidade de luxo e proporcionado novas formas de monetização e de fidelização de clientes? Do seu ponto de vista, eles já deixaram de ser serviços complementares e se tornaram diferenciais competitivos?

Camilla Barretto - Estes conceitos estão diretamente ligados à hospitalidade de alto padrão. Atualmente, quem não oferece isso não sobrevive no mercado de luxo. O consumidor quer atenção plena e busca quem sabe oferecer serviços que abracem sua saúde e bem-estar em todos os momentos de sua vida. Para os empreendimentos isso é ótimo, pois aumenta sua receita através de serviços de maior valor agregado que acabam favorecendo a fidelização de seus hóspedes, já que tornam o hotel parte de sua jornada contínua de saúde e qualidade de vida.

6.⁠ ⁠Conceitos, principalmente os de wellness e longevidade, já estão mudando a concepção de luxo, tornando-a mais focada na promoção de saúde e bem-estar? Por que?

Camilla Barretto - O luxo está cada vez menos sendo definido pelo excesso material e, cada vez mais, por vitalidade, equilíbrio, saúde e qualidade de vida. Na prática, o maior privilégio já não é possuir mais, mas viver com mais energia, presença e longevidade.

7.⁠ ⁠Um dos exemplos de modelos de negócios que têm surgido no país, em meio a esse movimento, é o wellness club. O que significa esse conceito e o que ele propõe de mudanças e oportunidades para a hospitalidade?

Camilla Barretto - A maior mudança está no deslocamento de uma lógica de hospitalidade transacional para uma lógica de relacionamento contínuo. O que era pautado por um momento específico, como por exemplo, uma terapia realizada no spa do hotel, hoje passa a permanecer por mais tempo.

O hóspede começa seu relacionamento com a marca em um momento durante sua viagem, mas continua a consumir a marca posteriormente acessando conteúdos, recebendo convites para eventos fechados, fazendo parte de uma comunidade de bem-estar. Em centros urbanos, principalmente, além de hóspedes os wellness clubs passam a atender também residentes de alta renda.

8.⁠ ⁠Como a hotelaria de luxo nacional tem se adaptado ao movimento de wellness tourism?

Camilla Barretto - Em síntese, a hotelaria de luxo brasileira está se adaptando ao wellness tourism ao expandir seu papel de provedora de hospedagem para curadora de bem-estar e transformação pessoal. Nosso grande diferencial é poder fazer isso com ativos difíceis de replicar globalmente. Temos biodiversidade, natureza exuberante, saberes tradicionais e hospitalidade genuinamente humana. O wellness, no caso brasileiro, não é apenas um produto, mas uma expressão autêntica da própria brasilidade: alegria, emoção, afeto. Nossa hotelaria de luxo encanta porque sensibiliza emocionalmente o hóspede.

9.⁠ ⁠Qual tem sido a importância da tecnologia na evolução da hospitalidade de luxo? O biohacking, por exemplo, já é realidade no país?

Camilla Barretto - No segmento de luxo, a melhor tecnologia é aquela que quase não aparece. O objetivo é utilizá-la para tornar a experiência mais personalizada e centrada no bem-estar. No Brasil, o biohacking já existe, porém ainda não com a sofisticação que existe nos Estados Unidos ou Suíça, por exemplo.

10.⁠ ⁠Em quais regiões do país a hotelaria de luxo/ hospitalidade premium tem se destacado? Além do turismo de lazer, a categoria também tem se tornado atrativa para o turismo corporativo?

Camilla Barretto – A hotelaria de luxo e a hospitalidade premium no Brasil vêm se destacando principalmente em regiões que combinam atratividade natural, identidade cultural forte, acessibilidade e capacidade de oferecer experiências exclusivas. Rio e São Paulo continuam sendo grandes centros de atração de turistas, mas o crescimento mais interessante se dá em regiões como Amazônia, Pantanal, Lençóis Maranhenses, litoral do Ceará e o litoral de Alagoas.             

Para o segmento corporativo, com a evolução do segmento de eventos e a atração de grandes shows internacionais, Rio e São Paulo lideram esse movimento por suas infraestruturas de negócios e conectividade aérea. Há também o crescimento expressivo de Florianópolis que alinha negócios e conexão com a natureza, principalmente, nas regiões de Itajaí e Balneário Camboriú, que tem forte expansão imobiliária.

11.⁠ ⁠O turismo nacional está em alta e registrando recordes de movimentação de brasileiros e estrangeiros. O que isso representa para a hotelaria de luxo? E quais são as expectativas do segmento para os próximos anos?

Camilla Barretto - Isso representa oportunidade e, ao mesmo tempo, atenção. Para os próximos anos, a expectativa é de expansão contínua do segmento, principalmente, em regiões mais remotas, capazes de atrair o viajante global em busca de experiências de luxo.

O principal desafio, porém, será enfrentar a escassez de mão de obra qualificada, que já é uma realidade e ampliar a conectividade aérea. Para a resolução do primeiro desafio será necessário combinar capacitação profissional com políticas de desenvolvimento territorial que priorizem a formação e a contratação de talentos locais. Para o segundo, ampliar o diálogo entre os setores do turismo, poder público e investidores, para que o movimento seja integrado.

Estes e outros assuntos relacionados à hospitalidade serão abordados nos espaços de experiência da Equipotel 2026. O evento será de 15 a 18 de setembro, no Expo Center Norte, em São Paulo, e contará com mais de 450 marcas expositoras apresentando lançamentos, tecnologias e serviços para impulsionar o mercado.

 O credenciamento está aberto e pode ser feito aqui.